Lei, crime, droga e a liberdade

João Júlio da Silva
Já disse aqui e volto a repetir que nada mais me surpreende, principalmente, o que vem do STF (Supremo Tribunal Federal). Mas a turma de lá acha que ainda pode surpreender. Novamente, uma decisão da corte máxima do país está dando o que falar. Na última quinta-feira, o Supremo decidiu que traficante pode responder ao processo em liberdade. Os nobres ministros chegaram a tão brilhante conclusão após o julgamento de habeas-corpus apresentado pela defesa de um acusado, preso desde agosto de 2009, flagrado comercializando cocaína e outros entorpecentes. Eles declararam inconstitucional o trecho da Lei de Drogas, de 2006, que impedia pessoas acusadas de tráfico de entorpecentes de responder em liberdade. A partir de agora, os juízes vão decidir caso a caso se vão ou não conceder a liberdade provisória.
Ficou entendido que a obrigatoriedade da prisão preventiva para suspeito de tráfico é ilegal porque viola o princípio da presunção de inocência, que considera todo cidadão inocente até decisão definitiva da Justiça. Os ministros também entenderam que a vedação prévia da lei impede que o juiz verifique as peculiaridades de cada acusado.
O relator do caso, ministro Gilmar Mendes, afirmou que a lei entra em confronto com os princípios da presunção de inocência e da dignidade humana previstos na Constituição. Mas, desde quando traficante sabe o que venha a ser “dignidade humana”?
Essa é a segunda vez que o Supremo esvazia a Lei de Drogas. Em setembro de 2010, os ministros anularam trecho da lei que impedia a conversão da prisão em pena alternativa para condenados por tráfico de entorpecentes.
Aos poucos, vão detonando com a lei. Nesse ritmo, pode vir um tempo em que decidirão trocar a pena do traficante até por algum benefício. Quem sabe ele seja até considerado um cidadão de bem.
A lei prevê que os crimes relativos ao tráfico de drogas são insuscetíveis de liberdade provisória, indulto, anistia, entre outros benefícios. Mas, os supremos ministros entenderam que a lei não poderia realizar esta proibição, e que ela deve ser analisada pela Justiça caso a caso. A decisão é vista por muitas pessoas como um avanço. Para quem?Com a decisão das ilustres autoridades, o traficante de drogas está festejando, às gargalhadas, pois pode ficar livre, leve e solto, podendo até “desaparecer” caso seja necessário. Diante disso, o que fará o policial? De que adianta ir atrás de traficantes? Estão dificultando ao máximo o trabalho de combate ao crime, principalmente, ao tráfico de drogas. Uma pergunta não quer se calar: a quem tudo isso interessa? Pois, de uns tempos para cá, o crime parece compensar e muito neste país.
Este mesmo Supremo, que agora se mostrou favorável à liberdade dos traficantes, em junho do ano passado decidiu pela liberação da chamada “marcha da maconha” em qualquer cidade do país. Esse tipo de evento reúne pessoas favoráveis à legalização da droga. Os ministros decidiram que prevalece a liberdade de expressão e de reunião. O que era marcha da maconha agora pode ser marcha da liberdade de expressão. É assim, fácil…
A droga é, sem nenhuma dúvida, a maior desgraça da humanidade nos tempos atuais, mas pelo jeito, nem todos pensam assim. Enquanto isso, a cracolândia se alastra país afora.
Afinal, quem estaria por trás de tudo isso, a quem interessa a liberdade provisória do traficante, a legalização da marcha da maconha e até quem sabe, em breve, a descriminalização da droga?
Como já disse neste espaço, estão decidindo temas polêmicos sem discussões mais aprofundadas e antes de passarem por um referendo popular. Como pode ser enfiado goela abaixo das pessoas algo que mexe com toda a estrutura da sociedade? Por esse caminho, isso aqui vai acabar virando uma baderna, uma terra sem lei.
Uma verdade que encontrei diz algo mais ou menos assim: “a pessoa que entra no consumo da droga, ela perde o poder de decidir, quem decide é a droga.” Será que o poder da droga já anda decidindo o que é legal e o que não é? Não creio que já esteja tudo dominado, mas que está bem infiltrado, parece que sim.

Um surfista na Esplanada

João Júlio da Silva
Quando ainda era um jovem que desfrutava apenas dos prazeres da vida, Carlos Daudt Brizola, conhecido como Carlito pela turma de amigos, costumava pegar umas ondas no mar bravio.
Agora o surfista Brizola Neto (PDT-RJ), como é chamado no cenário político, é o novo ministro do Trabalho. O neto do ex-governador Leonel Brizola assumiu o cargo na quinta-feira, em cerimônia no Palácio do Planalto, elogiando a queda da taxa de desemprego no país. “Em nove anos, o Brasil conseguiu praticamente extirpar o desemprego, que mais do que um problema, passava a ser visto como uma fatalidade”, destacou.
Como que é, “conseguiu extirpar”?Pelo jeito, o surfista do Arpoador entende tanto do ministério que assumiu como deve dominar Física e Química.
Embora seja surfista, ele caiu como um paraquedista desnorteado no cargo. Será que ele quer apenas tirar uma onda na Esplanada dos Ministérios?
Ao ser anunciado no início da semana, ele disse que o seu partido “tende a marchar pela unidade”. “No processo de escolha tendem a surgir preferências. O PDT tende a marchar pela unidade”, afirmou.
A indicação de Brizola Neto não era unanimidade no partido e foi tratada como “indicação pessoal” da presidente Dilma Rousseff. Ela deu ao novo ministro a missão de unificar o PDT. “Minha tarefa principal agora é construir essa unidade”, disse, após ser anunciado.
Mas, a tarefa de um ministro não é se ater ao que compete a pasta para a qual foi indicado? Pelo jeito, o surfista foi chamado para apaziguar os ânimos do PDT, que não ficaram nada afinados com o governo desde a saída de Carlos Lupi do ministério, em dezembro de 2011, em meio a denúncias de irregularidades. Desde então, a pasta era comandada interinamente por Paulo Roberto Santos Pinto. Talvez o Ministério do Ócio, digo, do Trabalho, não seja tão importante! Quem sabe é considerado tão valoroso quanto o da Pesca e até, quem sabe, como todos os demais ministérios. Afinal para que tantos ministros? Ora, é preciso alojar toda a turma! Tal exagero também se estende para secretarias estaduais e municipais. Como não arrumar uma secretaria para um afilhado, filho, enteado e até um amigo, pois é preciso confiança em quem está ao nosso redor, pois não é? Quem sabe um deles até vire prefeito um dia, vai saber!
Mas, voltemos ao Brizola Neto. Ele afirmou que a pasta precisa se esforçar para acompanhar tanto o avanço tecnológico quanto o crescimento econômico nacional. “É preciso que seja ágil, transparente, inovador, precisa fazer parte da discussão e da implementação de políticas sociais que nos conduzam a caminhos que se abram para o nosso país”, disse. Poxa, que discursinho mais sem eira nem beira esse, não?
Na posse, o titular do Trabalho lembrou de seu avó. “O sobrenome que possuo integra uma linhagem de brasileiros ilustres, que se inicia com Getúlio Vargas, João Goulart e da figura saudosa de meu avó, Leonel Brizola. Esse sobrenome indissoluvelmente ligado a essa trajetória histórica que agora se redesenha em Luiz Inácio Lula da Silva e a com a presidente Dilma Rousseff”, disse.
O ministro surfista nasceu em Porto Alegre em 11 de outubro de 1978. Com 33 anos, ele é o mais jovem ministro do governo Dilma. Que experiência tem para assumir um ministério? Ora, ele sabe enfrentar uma onda, se preciso talvez até encare um tsunami!
Animador isso, pois com os efeitos da crise financeira global já batendo na economia brasileira, ele vai ter muito trabalho para lidar com o desemprego. E, com certeza, não se trata de nenhuma ‘marolinha”.
Como não tem experiência? Ele foi presidente do diretório municipal e ex-presidente nacional da Juventude Socialista do PDT. Foi ainda secretário de Trabalho e Renda do Rio, ex-vereador e deputado federal pelo PDT. Pena que o velho Brizola não viveu para ver o neto nomeado ministro do Trabalho.
Mas, antes de ingressar no mundo da política, Brizolinha gostava mesmo era de surfar. “Gostava (que saudade!) de pegar onda”, diz ele em seu blog. Ah, o ócio! Talvez ele tente surfar no Lago Paranoá de Brasília. Vai que dá onda!

Trabalho e a crise global

João Júlio da Silva
Para início de conversa quero saudar todos os trabalhadores pelo seu dia depois de amanhã, 1 de maio, uma data muito especial para aqueles que realmente carregam o país às costas. Se por um lado há sim o que comemorar, pois as conquistas históricas sempre são motivos para fortalecer a luta permanente, por outro, os tempos atuais revelam que a crise financeira internacional é um problema sério que causa muita preocupação, principalmente para os trabalhadores assalariados. E razões não faltam para isso. O fantasma do desemprego está sempre a rondar o trabalhador.
De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego subiu para 6,2% em março depois de ficar em 5,7% em fevereiro. Apesar da alta, o resultado é um pouco menor do que o observado no mesmo período de 2011, quando a taxa ficou em 6,5%. De acordo com dados, a população desocupada totalizou 1,5 milhão de pessoas. Para o IBGE, o aumento da taxa de desemprego na passagem de fevereiro para março indica uma continuidade na dispensa de trabalhadores temporários, iniciada em janeiro.
Pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), também revela alta na taxa de desemprego em março no conjunto das sete regiões pesquisadas (Distrito Federal e regiões metropolitanas de Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador e Recife). A taxa passou de 10,1% em fevereiro para 10,8%. O total de desempregados foi estimado em 2,423 milhões. Na Região Metropolitana de São saiu de 10,4% em fevereiro para 11,1% em março.
Mesmo com esses índices ruins, eles estão bem melhores que nos tempos de apatia econômica no país. Os números daquela época mostram bem isso. E contra eles, não há argumento que se mantenha de pé.
Apesar da ameaça do desemprego, a situação brasileira no cenário mundial de crise econômica não é das piores. O que, convenhamos, já é alguma coisa. Enquanto os Estados Unidos e países da União Europeia se desdobram para sair do abalo financeiro por que passam, o Brasil vai, de uma forma ou de outra, tentando escapar de seus efeitos desastrosos. Mas, no mundo globalizado, qualquer sismo econômico no Azerbajão acaba tendo reflexo em todo lugar.
E se a crise internacional não provocou nenhum tsunami na economia brasileira, acabou sim, causando muito mais estrago do que causaria uma simples “marolinha”.
O governo federal vai se contorcendo até onde der, reduz uma alíquota de imposto daqui, eleva a oferta de crédito dali, e tenta sobreviver à crise internacional sem maiores danos. Mas, até quando? Enquanto tiver umas gordurinhas para serem queimadas, vai se indo, quem sabe para tempos mais prósperos para todos.
Por enquanto, o jeito é ir se aguentando, em alerta máximo e trabalhando para que a situação melhore mundo afora. Se piorar, aí as pequenas melhoras registradas nos últimos anos vão virar água e o país voltará a patinar nos entraves do subdesenvolvimento.
Em momentos assim, a nação tem que estar unida, como se percebe nos países de primeiro mundo, uma crise econômica de proporções globais não pode ser jamais utilizada numa disputa política, principalmente em ano eleitoral. Que os partidos e os políticos apresentem propostas, alternativas e soluções para os problemas, deixando de lado a pobreza do discurso que não traz em si nenhum compromisso com o futuro do país. Se blablablá e nhenhenhém resolvessem alguma coisa, o país não teria ficado tanto tempo marcando passos no cenário da economia mundial.
Pena que logo agora que o Brasil estava dando alguns passos rumo ao desenvolvimento, se tornando uma economia digna de respeito no exterior, essa crise global veio atando seus pés. Mas nem tudo ainda está perdido e que o trabalhador comemore no seu grande dia, o país melhor que temos hoje, apesar de todos os pesares e dessa crise global. É preciso acreditar em dias melhores sempre, mesmo que o tempo esteja sombrio. Cabe ao trabalhador continuar construindo o grande Brasil que tanto almejamos. Avante, companheiros!

Clube da Esquina no parque

João Júlio da Silva
Domingo no parque. Hoje tem música da melhor qualidade no Parque da Cidade, em São José dos Campos. Um dos ícones da música mineira e da MPB, Beto Guedes deve mostrar o seu brilhantismo de estrela da cultura popular, às 19h30, na Festa do Mineiro da comunidade “uai”.
Beto Guedes é um dos integrantes do famoso “Clube da Esquina”, um divisor de águas na música brasileira que completou 40 anos em março. Mesmo quatro décadas depois, o famoso disco ainda segue influenciando novos músicos.
O famoso “Clube da Esquina“ é o resultado da amizade e do sonho de jovens músicos mineiros que queriam mudar o mundo e produziram belas melodias e letras em músicas inesquecíveis. Um fruto que brotou do solo de Minas Gerais.
O “Clube da Esquina” vai além de um encontro de duas ruas, ele representa a união da música, da poesia, da literatura e, sobretudo, de almas de jovens mineiros em busca da liberdade e da amizade sincera. Milton Nascimento, considerado o porta-voz do grupo disse sobre o famoso encontro dos amigos: “Penso que o Clube não pertencia a uma esquina, a uma turma, a uma cidade, mas sim a quem, no pedaço mais distante do mundo, ouvisse nossas vozes e se juntasse a nós”. O “Clube da Esquina”, além de ter sido um dos movimentos musicais mais importantes da história da cultura brasileira, rendeu frutos musicais extraordinários.
Um dia, na esquina da Rua Divinópolis com a Rua Paraisópolis, no simpático bairro de Santa Teresa, Milton e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô) fundaram o “Clube da Esquina”, unidos pela música, política e, principalmente, amizade. O nome do clube foi ideia de Márcio Borges que, sempre ao ouvir a mãe perguntar por onde andavam os meninos, Borges dizia: “Claro que lá na esquina, cantando e tocando violão”. “A gente tinha certeza de que ia produzir uma obra que ia ficar e se esmerou nisso. Foram muitas cabeças reunidas, muitos talentos juntos de uma só vez. Todos voltados para um só produto. E o resultado só podia ser este”, disse o compositor Márcio Borges, que junto com Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Beto Guedes, Toninho Horta e a dupla Milton e Lô Borges –que assina o disco– encabeça o projeto musical.
A síntese do álbum talvez esteja explicada no texto do encarte original de 1972, escrito por Fernando Brant: “O Clube da Esquina tinha que ser este disco que aí está. Imagem solidária de pessoas solidárias. Pois caminhamos juntos há muito tempo, desde antes da música, desde os primeiros fios de homem, talvez desde os antepassados…”.
O “Clube da Esquina” surgiu da grande amizade entre Milton Nascimento e os irmãos Borges, na Belo Horizonte dos anos 1960, depois que Milton chegou à capital para estudar e trabalhar. Milton acabara de chegar de Três Pontas, cidade onde morava a família e onde tocava na banda W’s Boys com o pianista Wagner Tiso.
[1]Aos fãs dos Beatles novos integrantes vieram juntar-se: Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho Moura e muitos outros.
Todos os integrantes do grupo fizeram carreira solo de sucesso, além da formação do grupo 14 Bis, que fez muito sucesso desde o grupo O Terço.
Por causa da burocracia, projetos de comemoração dos 40 anos do disco “Clube da Esquina” acabaram não saindo do papel a tempo para este ano.
“Clube da Esquina” é, na sua essência Minas Gerais , mas é também, universal.
Como mineiro gosta muito de trem, principalmente, de um trem bão, recordo a letra de “O trem azul”, de Lô Borges e Ronaldo Bastos : “Coisas que a gente se esquece de dizer. Frases que o vento vem as vezes me lembrar. Coisas que ficaram muito tempo por dizer. Na canção do vento não se cansam de voar. Você pega o trem azul, o Sol na cabeça. O Sol pega o trem azul, você na cabeça. Um sol na cabeça. Coisas que a gente se esquece de dizer
Coisas que o vento vem as vezes me lembrar. Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar. Você pega o trem azul, o Sol na cabeça. O Sol pega o trem azul, você na cabeça. Um sol na cabeça.” Que beleza!Então, vamos ver o Beto Guedes, hoje no parque! Um show imperdível.

Quinze anos de resistência

João Júlio da Silva
Com a publicação deste texto, estou completando 15 anos de “colunismo”, um período que vai de “Entrelinhas” a Papo de Domingo. Acredito que ficar 15 anos ininterruptos escrevendo uma coluna dominical não é para qualquer um, embora eu seja cheio de limitações. E apesar das forças contrárias, até aqui tenho resistido. Talvez tenho me mantido de pé por pura teimosia. Que nada, foi pelo apoio recebido de determinados leitores durante a caminhada que consegui chegar até aqui! Há quem diga que a coluna não tenha mais que meia-dúzia de leitores, contando os que me odeiam, mas são bem mais que isso. Talvez, sete!
Na internet, esta coluna é publicada no “Blog do Jota”, mas, na realidade, utilizo o espaço apenas como um arquivo para os textos que publico no jornal impresso. O meu blog não chega a ser um blog de verdade, é apenas um depósito de textos. Talvez por isso, o número de acessos não encabeça a “lista dos recordes”, mas o que importa é que cada acesso da coluna vale por mil, pois meus leitores são diferenciados. Embora, o que escrevo não seja grande coisa. Para alguns, não passa de um lixo.
Mas, a minha paixão mesmo é o texto impresso, publicado em dois jornais. E lá se vão quinze anos de resistência. Sei que não posso desprezar o “blog”, pois foi através dele que ganhei uma nova leitora, uma estudante universitária lá da região de Ribeirão Preto. Ela enviou um e-mail na semana passada me encorajando e dando forças para continuar.
Tenho consciência que nestes quinze anos alguns leitores estiveram comigo o tempo todo, acompanhando passo a passo. São leitores fiéis, de carteirinha mesmo. A cada ano, penso em parar com a coluna, mas pelos leitores continuo. Mesmo com a total falta de consideração de alguns e os ataques contundentes de muitos outros, digo aos leitores que fico, ou seja, continuo até quando for possível. Seja pelos cantos, ora por cima, ora por baixo, vamos adiante.
Também não poderia deixar de lembrar que nesses quinze anos de resistência tive como vizinhos de página ótimos colunistas, entre eles Joelmir Beting, Sonia Racy, Carlos Nascimento, Luiz Carlos Mendonça de Barros, Ricardo Noblat e Luís Nassif. Todos passaram e aqui estou eu, insistindo em resistir. Que pena, não!
A data de hoje é sim muito especial para mim. Posso até estar meio abatido, pois motivos não faltam para isso, mas é tempo de comemorar as vitórias alcançadas.
A razão para esta felicidade pode não ter nenhum valor para muitos, mas para mim é de muita importância. É como se tudo tivesse começado ontem mesmo, mas foi no domingo de 13 de abril de 1997.
E repito que nesta empreitada, o que conta mesmo é o retorno dos leitores, elogiando ou criticando, mesmo que violentamente, o meu ponto de vista. É devido a eles, que a resistência já tem quinze anos, uma adolescente. Em certas ocasiões, estive por jogar a toalha, chutar o balde ou o pau da barraca, mas ao pensar no caro leitor mantive a luta de continuar meu silencioso grito.
Não sei se chegarei aos vinte anos de coluna. Talvez ela não sobreviva até lá. Ou eu, vai saber! Mas pelo fato de ter chegado até aqui já é motivo para muita comemoração. E não é simplesmente por ter chegado ao décimo quinto aniversário, mas pelo que ela traz consigo ao longo da caminhada. Repito que as palavras publicadas aqui são simplórias e ecoam o grito silencioso de alguém que tem a esperança de ver um país cada vez melhor e justo para que todos os brasileiros e um mundo mais humano.
Sei que para determinadas pessoas a coluna já teria acabado há muito tempo; como ainda não acabou, para elas é indiferente que continue. Às vezes, fico pensando sobre a total falta de apoio e fico cabisbaixo, mas, é preciso ir avante, enquanto se pode caminhar. E para não ser injusto nem ingrato, agradeço aos que permitem que esta coluna seja publicada.
Por enquanto, devo continuar com a coluna, para desespero e ódio de uns e gratidão de outros. E que esse tempo de resistência possa me servir de ânimo para continuar caminhando, apesar dos pesares. E que Deus nos proteja!
Valeu, gente! Estou grato a todos. Resistir é preciso.

Um tempo caçador, outro caça

João Júlio da Silva
Quem poderia imaginar que aquele crítico voraz na tribuna do Senado contra os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff seria pego um dia com a boca na botija? Pois então, a Polícia Federal pegou aquele que era considerado por grande parte da mídia como arauto da transparência e da ética política.
O Senador Demóstenes Torres (DEM-GO) caiu em desgraça, acusado de envolvimento com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Então dançou aquele figurinha, símbolo da honestidade, um ferrenho e audacioso crítico do governo de plantão!
Sua expulsão do partido era dada como certa, mas ele se antecipou e pediu, na terça-feira, sua desfiliação do DEM. Mesmo assim, ainda continua no Senado. Mas ele corre o risco de enfrentar um processo por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética.
Na carta em que pediu para deixar a sigla, Demóstenes fala em “prejulgamento”. “Embora discordando frontalmente da afirmação de que eu tenha me desviado reiteradamente do programa partidário, mas diante do prejulgamento público que o partido fez, comunico minha desfiliação do Democratas”,disse. É, pimenta nos olhos dos outros é refresco!
Denúncias de envolvimento com Cachoeira, preso em fevereiro durante operação da Polícia Federal, foram fatais. Gravações telefônicas feitas pela PF mostram que Demóstenes usou cargo de senador para beneficiar Cachoeira. O senador chama o bicheiro de ‘Professor’, que, por sua vez, trata Demóstenes como ‘Doutor’. Bem cordiais, eles.
Por que não faz agora sua defesa na tribuna assim como atacava seus adversários, com um discurso explosivo. A cada discurso que fazia, os holofotes estavam presentes, ele era badalado por um monte de puxa-sacos que torciam por ele.
Onde foi parar toda aquela eloquência e tanta“seriedade” política.
Ele se achava como o grande “líder” da oposição que combatia a corrupção do governo federal, mas não fez caso de sua ficha suja, esquecendo de olhar sua própria trajetória de malfeitos. Agora está na lona, correndo o risco de deixar o Sendo pelas portas do fungo, sufocado por corrupção e tráfico de influências. Está desmoronando aquela tão aclamada imagem de paladino da moralidade da vida do homem público. Era um dos grandes defensores da Lei da Ficha Limpa. Pelo visto, a corrupção não poupa ninguém, até um imaculado “demo” acabou caindo em tentação. E tem mais gente muito preocupada com as investigações policiais.
Embora tenha sido ex-procurador geral de Justiça de Goiás em duas ocasiões e ex-secretário de Segurança do Estado entre 1999 e 2002, o senador Demóstenes, pelo que a PF ouviu, transitava com desenvoltura entre pessoas ligadas, direta ou indiretamente, ao mundo dos jogos ilegais.
Além da grande amizade com o contraventor Cachoeira, Demóstenes também recebeu dinheiro em sua campanha de um advogado preso duas vezes pela Polícia Federal sob acusação de integrar uma quadrilha para permitir o funcionamento de bingos e a exploração de caça-níqueis.
O que será agora daquela figura conhecida por criticar escândalos de corrupção no governo e colegas envolvidos em irregularidades? Como era contundente o ex-líder do DEM em seus ataques! É oportuno lembrar algumas frases.
“Aliás, o governo do PT, de uma forma generalizada, descobriu que voar é a grande quimera do poder”, disse em abril de 2005, criticando viagens de Lula. “Realmente, os políticos estão perdendo a vergonha na cara”, declarou em 2007 sobre o colega Renan Calheiros (PMDB-AL).“Renan Calheiros tem que abandonar o cangaço e se portar como presidente do Senado”, disse em junho 2007 .“A imagem do Senado, hoje, é a de um pau de galinheiro”, declarou em setembro de 2007, também sobre o episódio Renan. Mas, também estava no poleiro imundo.
É roto falando de esfarrapado. “Nunca tive notícias de ratos no Senado. Desses que mordem o pé pelo menos não”, disse em 22 de janeiro de 2012, sobre um rato ter mordido uma funcionária da Casa. Ele sabia o que estava dizendo. De roedores ele deve entender. Ou não? Malditos ratos!

De papel, papelzinho e papelão

João Júlio da Silva
Houve um tempo em que um fio de bigode representava a garantia de um acordo, negócio ou compromisso. Não, não era obrigatório registrar o que foi apalavrado em cartório ou sequer, fazer o maldito “reconhecimento de firma”. Para o homem, bastava um fio de bigode para que o negócio assumido fosse considerado fechado. Um fio de bigode valia mais do que qualquer contrato escrito, palavra dada é palavra de honra, palavra de cavalheiro. Era questão de honradez. Mas, nos dias que correm, o que se fala de manhã já não vale ao meio-dia.
Neste mundo, cada um tem a sua missão, o seu trabalho, os seus afazeres, por fim, tem o seu papel a cumprir. A pessoa cumpre as suas atividades de acordo com as circunstâncias, a sua formação e o seu caráter. Muitos se complicam com um simples papelzinho, outros vivem cometendo um grande papelão, mas tem aqueles que cumprem bem o seu papel.
Pois então, o candidato derrotado à Presidência da República, José Serra, acabou vencendo as prévias tucanas no último domingo e vai disputar o cargo de prefeito da capital paulista. Ele bateu o secretário do Estado de Energia, José Aníbal, e o deputado federal Ricardo Tripoli. No total, 6.229 filiados tucanos votaram. Serra teve 52% (3.176) dos votos, contra 31,2% (1.902) de Aníbal e 16,7% (1.018) de Tripoli.
Na semana anterior às prévias, o então pré-candidato tucano deu uma entrevista para uma rádio no dia de seu aniversário de 70 anos, e disse que o termo assinado por ele em 2004 se comprometendo a cumprir os quatro anos de mandato caso fosse eleito prefeito era “apenas um papelzinho”. Ah, bom, então tá!
O tal “papelzinho” deu muito o que falar, como aquela bolinha de papel que o tucano diz ter sido agredido na cabeça na última campanha presidencial. Ele deve ter algum problema com papelzinho e papel.
Então o que foi dito à população paulistana naquela ocasião era tudo mentirinha, pois pelo visto, o compromisso assumido não era importante porque não passava de um papelzinho qualquer, sem valor. O próprio Serra comentou o que disse sobre o “papelzinho”. “Se eu falei papel ou papelzinho não muda nada, isso não tem importância nenhuma. O que eu disse, eu digo sempre. Assinar ou não assinar não faz diferença. Eu assinei um papelzinho. Não era nada…” Então é assim que funciona, o que diz “não tem importância nenhuma”.
Agora, fica a dúvida, caso seja eleito, irá cumprir o mandato, ou mais uma vez, vai fazer do cargo um trampolim para as eleições futuras?
Recordar é preciso. Serra era candidato a prefeito em 2004 e assinou um documento firmando o compromisso de permanecer no mandato até o final. Não foi o que aconteceu. Em 2006 ele se candidatou a governador e largou a prefeitura nas mãos de Kassab que, e a capital acabou ficou jogada às traças, pois o prefeito estava mais preocupado em fundar o próprio partido. No final de 2010, o tucano disse que não se candidataria a prefeito em 2012. Agora, acaba de vencer as prévias do partido e disse que vai cumprir o mandato até o fim, casa vença as eleições. Será? Depois de tudo, ainda dá para acreditar?
Todo documento, ou papelzinho que seja, com uma promessa contendo a assinatura de um político, deve sim ser considerado muito importante e levado a sério, afinal, se trata da palavra de honra de quem rubricou o nome no papel. É uma questão de credibilidade para qualquer pessoa, para os políticos então, trata-se de sobrevivência política. Ou, não? Pelo jeito, eles consideram isso uma bobagem.
Para finalizar, lembro o grande escritor, jornalista, desenhista, pensador combatente e frasista Millôr Fernandes, que morreu na última semana. O que disse tempos atrás ainda vale para hoje: “As pessoas que falam muito mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”. Ou ainda: “A diferença entre a galinha e o político é que o político cacareja e não bota ovo”. Ou: “Eu sei sempre do que é que estou falando. Tirando isso não sei mais nada”. E: “Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na terra um canalha a menos”. Valeu, Millôr, pelo belo papel!

Tristeza em Chico City

João Júlio da Silva
Morreu o grande comediante Chico Anysio. É mentira, Terta? Verdaaade! Infelizmente, não é mentira. E morreu com ele não apenas o velho Pantaleão, mas uma multidão de personagens criados pelo grande artista.
Suas grandes criações jamais terão vida novamente na pele e voz de outro humorista. Impossível, Chico era ímpar e incomparável.
Um ator não precisa ser humorista, mas o humorista sim, precisa ser um grande ator. Nenhum outro esteve ou está na mesma dimensão que atingiu Chico Anysio, que, para mim, era, antes de ser um excepcional comediante, o maior ator deste país. Deixava no chinelo muitos atores globais que se acham os tais. Para interpretar, digo até, incorporar, aquela enormidade de personagens era preciso muito talento. E isso não é para qualquer atorzinho de novela não!
Nesses tempos sem graça e de humor duvidoso, de pânico e outras monstruosidades na televisão, em que pseudoartistas se acham engraçadinhos e faltam com o respeito com as pessoas, Chico fará muita falta. Pena que a “toda poderosa” tenha deixado Chico na geladeira, fora do ar, por tanto tempo. Em 2000, a “deusa platinada” tirou mesmo o humorista de sua grade de programação como punição às suas críticas em relação à emissora.
Esse foi o tratamento que teve depois de tantos anos dedicados, dando retorno e sucesso à empresa. Chico não gostou. “Sou um artista que, em 53 anos de profissão, sempre expressei livremente meu pensamento sem intenção de desrespeitar ninguém, muito menos a Rede Globo, onde trabalho há mais de três décadas, tendo excelente e respeitoso relacionamento, principalmente com a alta cúpula, a quem sempre rendi homenagens como o melhor empregador que já tive. Como artista, meu único patrimônio é meu direito de pensar e dizer, já que, por ser um criador, isto é uma qualidade inata. A este patrimônio não renuncio, mesmo em tempo de censura, como agora. (…) Estou tentando compreender os motivos que levaram a Rede Globo a agir desta forma que muito mais pune a ela do que a mim.” A emissora manteve o seu contrato, evitando sua ida para outros canais. Agora ela fica aí, cheia de homenagens. Mas, não há desrespeito que consiga aniquilar o talento, a obra de Chico permanecerá como exemplo do que é ser um verdadeiro artista.
Chico Anysio morreu aos 80 anos depois de passar 112 dias internado. Foi guerreiro até o final, como todo bom nordestino. Esteve internado por diversas vezes, quando teve alta, em abril do ano passado, voltou a gravar o programa semanal “Zorra Total”, da Rede Globo, interpretando Salomé. O único quadro que se salvava no programinha sem graça. Cearense nascido em Maranguape, em 12 de abril de 1931, Francisco Anysio de Oliveira Paula foi o maior nome do humor no Brasill. Sua carreira se estendeu por mais de seis décadas como radialista, escritor e ator de teatro, cinema e televisão. O programa “Chico City”, lançado em 1973, era imperdível.
Chico casou por seis vezes e teve oito filhos (um deles adotivo). Foi casado com a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, do governo Collor. Até hoje me pergunto o que ele teria visto naquela mulher aguada. Mas, cada um tem a vida pessoal que deseja e não se discute essas particularidades.
Entre os diversos personagens que deixarão saudades, estão Tim Tones, Professor Raimundo, Bozó, Painho, Coalhada, Alberto Roberto, Justus Veríssimo, Salomé, Bento Carneiro, Pantaleão, Nazareno, Haroldo e Azambuja. Criou cerca de 209 personagens.
“O meu programa era absolutamente crítica social. Eu sempre defendi o pobre, o preto, o nordestino, o retirante, o mendigo, o preso, o esfarrapado. Então, rico, nos meus programas, sempre fez papéis ridículos, nunca fiz um rico que se desse bem no meu programa. Era uma maneira de dar um sonho, que fosse, para o povão que vê o programa.”, disse Chico no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, em 1993 .
“Para mim, há dois tipos de humor: o engraçado e o sem graça. E eu fico com o primeiro”, dizia Chico. Hoje, na TV, muitos optaram pelo segundo. Chico Anysio deixou um genial legado artístico. Que aprendam com ele.

Chamem Batman e Piti Bitoca

João Júlio da Silva
Se vivo estivesse, o grande escritor Monteiro Lobato talvez tivesse de incluir no seu time de personagens exuberantes, outras figuras, no mínimo, bizarras, de sua terra natal. Mas, teria que escrever uma história de terror grotesca. Não, ele não faria isso!
Esses seres risíveis que surgem do nada viram manchetes nos meios de comunicação da noite para o dia. Quando um desses tipos está em evidência e parece ser o último da categoria, logo em seguida surgem outros mais estapafúrdios ainda. Só rindo mesmo para não chorar de vergonha .
Entre a peças mais recentes que ganharam notoriedade estão o vereador que diz levar uma vida de Príncipe e a falsa grávida de quadrigêmeos. Sem falar do alcaide superpoderoso. Cheguei a pensar que a “supermãe” fosse a última celebridade do fundo do poço, mas, eis que surge todo faceiro o “Batman” da terrinha de Lobato, o defensor e guardião dos indefesos e inseguros cidadãos.
Pois então, a versão tupiniquim do homem-morcego é um militar aposentado que tem a mania de se vestir com a fantasia do super-herói. Ele teria cerca de 250 fantasias, duas delas do Batman, que custaram mais de US$ 15 mil cada (cerca de R$ 27 mil). Corajoso ele, sair com uma roupa cara assim por aí, em meio a tanta insegurança.
E não é que ele acabou sendo convidado para agir contra a criminalidade do seu município! É, e o convite partiu da própria autoridade responsável pela segurança da população. Eu até tento entender o caso, me esforço ao máximo, mas não consigo. Devo ser um burro imprestável, não o da central. Será tudo isso uma grande brincadeira? Estariam tirando uma da cara dos cidadãos pagadores de impostos? Não, eu me recuso a acreditar que isso seja algo sério. Simplesmente, não dá. Meus neurônios não permitem isso.
Será que acreditam mesmo que essa peça bufa vai mesmo combater o alto índice de violência que assola a população? Será que a tragicomédia irá reduzir a criminalidade? Com certeza não será um falso super-herói dos quadrinhos que colocará a bandidagem para correr. Ah! Não é nada disso? Sim, o Batman vai participar de campanha pela paz, conversando com as crianças. Que belo! Isso, nada de sair correndo atrás de criminosos. É, já não se faz super-herói como outrora! Sim, é preciso plantar valores humanos, lançar a semente do bem. Mas, e os valores que os criminosos roubam, quem vai parar com isso?
Com o surgimento do “Batman beira-brejo”, muito se discutiu sobre quem faria o papel de seu inseparável companheiro, o Robin, já que o mesmo ainda não deu a cara. Muitos nomes foram lembrados, mas considero que se deve recorrer à própria terra de Lobato.
E sendo assim, eu sugiro o Piti Bitoca. Sim, ele mesmo, o borboletinha. Não é uma graça! Eles fariam, sem dúvida, uma dupla temerosa: Batman e Piti Bitoca! Uau! Foras da lei, fujam todos! Bandidagem, perdeu, acabou a moleza, é o fim!
Então fica assim, precisando, em caso de perigo, que os cidadãos chamem por Batman e Piti Bitoca.
E as autoridades estão mesmo mobilizadas contra a violência. Além do reforço do Batman (e não se esqueçam do Piti Bitoca), elas também estão abertas a novos heróis e personagens, inclusive os do Sítio do Picapau Amarelo.
Que Batman que nada, queremos personagens brasileiros! Chamem a Cuca, o Saci e toda a turma: Emília, Narizinho, Pedrinho, Marquês de Rabicó, Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Nastácia e Tio Barnabé. Se fossem chamados, também atenderiam de bom grado e dariam a maior força outros grandes valentes como Mula-sem-cabeça, Curupira, Pisadeira, Chupa-cabra, Boto, Boitatá, Caipora, Boiúna, Lobisomem, Corpo-seco, Negrinho do Pastoreio, Mãe-d’água, Mãe-de-ouro, Matintapereira, Bicho-papão e até duendes e fadinhas.
Segurança pública é algo tão sério que chega a ser inconcebível que se combata o crime com algo tão singelo e ingênuo. Os bandidos devem estar rolando de rir de tudo isso. Como obter um resultado positivo com medidas assim? Penso que a segurança pública não pode ser tratada como uma história em quadrinhos.

Arena de rinha humana

João Júlio da Silva
Acredito que toda pessoa, com um mínimo de bom senso, seja contra qualquer tipo de violência.
E sendo assim, sou contrário até a lutas corpóreas que são recheadas de golpes violentos. Para mim, qualquer tipo de luta passa bem longe do que seja esporte.
Penso que as lutas não deveriam fazer parte dos jogos olímpicos. Esse tipo de combate é a negação da grandiosidade do que significa o esporte.
Estou tratando do tema porque dias atrás, ao dar uma olhadela na televisão, dei de cara com uma luta que é a sensação do momento, a tal de MMA (Mixed Martial Arts ou ainda Artes Marciais Mistas). O “espetáculo” foi assustador, os lutadores estavam banhados em sangue, enquanto se digladiavam. A cena é o que há de mais primitivo, troglodita e animalesco. Vale tudo mesmo, pior que briga de rua. Dizem que a luta tem regras, mas nada justifica o banho de sangue. Nem os animais irracionais chegam a tanto.
Onde querem chegar com tamanha violência?Até a toda poderosa, a Vênus platinada, entrou nessa. Voltou o tempo da barbárie. Ao ver aquela imagem de “selvagens” praticando o que chamam de “esporte”, pensei em tratar do assunto aqui. Mas, fui adiando até que na última segunda-feira li no jornal “Folha de S. Paulo’ um artigo de autoria do advogado e deputado federal José Mentor (PT-SP), intitulado “Proibir o MMA na televisão”.
Acredito que muitos concordam com ele, outros não, e tem aqueles que discordam apenas porque ele é parlamentar petista, uma bobagem, pois o que vale é o debate.
Segundo o artigo, objetivo é “proibir o televisionamento de lutas agressivas e brutais que banalizam e propagandeiam a violência pela violência, sem qualquer outra mensagem, pela TV, que é uma concessão estatal”. Mentor disse que “basta assistir a um único embate para ver a brutalidade e a contundência dos golpes, desde pontapés e joelhadas na cabeça até cotoveladas no rosto, chaves de braço e ‘mata-leões’ (chaves no pescoço)”.
Ele lembra que “em dezembro, o brasileiro Rodrigo Minotauro quebrou o braço e teve de passar por cirurgia para colocar 16 pinos metálicos. Em outra apresentação recente, bastaram alguns segundos para o ‘vencedor’ derrotar o adversário com dois únicos golpes Há cenas de sangue jorrando longe após cotoveladas na boca e no nariz do oponente -que caiu, tremendo e com espasmos”.
Mentor lembrou de outras brutalidades. “No Brasil, rinhas de galo e de canário são proibidas legalmente. Há cidades, como São Paulo, por exemplo, que não permitem rodeios, porque ferem e machucam animais. Mas lutar MMA que maltrata, fere, machuca, lesiona, sangra o ser humano, pode! Rinha humana pode!”
Ainda de acordo com Mentor, “em Nova York, desde 1997 são proibidas competições e outras atividades do MMA. Na França, elas também já foram proibidas. No Canadá, em 2010, a associação médica concluiu que o MMA provoca traumas e lesões que podem estar presentes pelo resto da vida do lutador. A entidade sugeriu que o esporte seja banido do Canadá, que é o segundo maior mercado do UFC (Ultimate Fighting Championship) no mundo. No Brasil, médicos e pesquisadores têm se manifestado contra a prática, apontando riscos tanto de lesões, algumas permanentes, como de morte”.
Para Mentor, “a veiculação das imagens dessas lutas pode incitar ainda mais a violência. São cenas que despertam instintos raivosos, maldosos. O UFC está avaliado em mais de US$ 1 bilhão e se tornou um fenômeno de mídia. São poucos ganhando muito com o sangue, com a desumanidade e com o destempero alheios”.
Seria a volta dos gladiadores? “Na Roma antiga, os gladiadores, escravizados, lutavam entre si até a morte. Galvão Bueno, nas chamadas da TV Globo, alardeia ‘os gladiadores do século 21?’”, disse.
Tem um bam-bam-bam da selvageria que está lançando “A Bíblia do MMA – As técnicas do maior lutador da atualidade”. Pior, tem igreja que já adotou a barbárie das lutas como forma de evangelização. Belo cristianismo esse, que transforma o púlpito em ringue de lutas. É o final dos tempos!